O Indo-Pacífico como a “Nova Área Pivot”: a colisão de Poderes Marítimos e a reconfiguração da Ordem Global
- NewGeoInfo
- 18 de mar.
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Atualizado: 18 de mai.

O Indo-Pacífico como a “Nova Área Pivot”: a colisão de Poderes
Marítimos e a reconfiguração da Ordem Global
Autor: Valdenor Matias Ribeiro de Souza Júnior
Resumo
A tese clássica da Geopolítica, formulada por Halford Mackinder, postula a existência de uma "Área Pivot" eurasiática cujo controle conferiria a uma potência continental a supremacia global. A presente reflexão argumenta que, no século XXI, a área estratégica central do sistema internacional não é mais de natureza terrestre, mas sim marítima, redefinindo o eixo de poder para a vasta região do Indo-Pacífico. Este artigo de opinião discorre sobre o choque de duas potências navais, Estados Unidos e China, na reconfiguração da ordem internacional, analisando o fenômeno à luz das teorias de poder marítimo de Alfred Mahan e das estratégias de contenção de George Kennan e de controle do Rimland de Nicholas Spykman. A dinâmica regional é entendida como uma manifestação do dilema de segurança do Neorrealismo, fomentando uma corrida
armamentista e a disputa por ativos críticos, como as rotas marítimas e a hegemonia tecnológica, elementos que convergem para confirmar o Indo-Pacífico como a Nova Área Pivot.
Palavras-chave: Geopolítica; Indo-Pacífico; Poder Marítimo; China; Estados Unidos.
1. INTRODUÇÃO
A Geopolítica, como campo de estudo, busca compreender a influência do espaço na formulação e execução da política internacional. A clássica formulação de Halford J. Mackinder (1904) sobre o "Heartland" ou "Área Pivot" eurasiática, como a chave para a dominação mundial, moldou o pensamento estratégico por décadas.
No entanto, a efervescência do século XXI exige uma reavaliação desse paradigma. O crescente foco de poder, riqueza e, consequentemente, de atrito estratégico, deslocou-se do eixo continental para o vasto arco marítimo do Indo-Pacífico, estendendo-se do Chifre da África à Península Coreana.
Essa ressignificação espacial encontra seu fundamento nas proposições de Alfred Thayer Mahan (1890), que conceituou o poder marítimo como a espinha dorsal do poder nacional e global. A partir dessa lente, o conflito contemporâneo é, sobretudo, uma disputa pela supremacia nos oceanos, onde as rotas comerciais, as cadeias de suprimentos e a projeção de poder militar se concentram.
É neste cenário que emerge o embate entre uma potência hegemônica estabelecida, os Estados Unidos, e uma potência ascendente, a República Popular da China, em uma dinâmica que remete à Estratégia da Contenção de George F. Kennan (1947). Originalmente concebida para cercar a União Soviética, essa política reemerge, transposta para o âmbito marítimo, com a criação de um "cordão sanitário" naval que se estende ao longo da primeira cadeia de ilhas, no Mar do Sul da China, visando limitar a projeção de poder chinesa para o Oceano Pacífico.

Figura 1 - Área Pivot
2. O INDO-PACÍFICO EM DISPUTA: TEORIAS, AÇÕES E REAÇÕES
O cerne da tensão reside na ascensão inexorável da China. Em uma manifestação de sua "paciência confuciana", o governo de Pequim capitalizou um crescimento econômico vertiginoso para se estabelecer como uma potência global.
Tal ascensão, no entanto, é vista pela escola do Neorrealismo (Waltz, 1979) como um inevitável gerador de instabilidade, uma vez que o aumento do poder de um ator, por mais benigno que se declare, é percebido como uma ameaça existencial por potências rivais, deflagrando o chamado "dilema de segurança".
Essa percepção é reforçada pela alocação de uma fatia crescente do Produto Interno Bruto (PIB) chinês para a Defesa, impulsionando a modernização e o alargamento de sua Marinha de Guerra. A China, imitando a lógica de Mahan, emprega uma estratégia de "colar de pérolas" (String of Pearls), estabelecendo portos e bases em pontos estratégicos ao longo das principais rotas marítimas que conectam o Oceano Índico ao Pacífico. Locais como Gwadar (Paquistão), Hambantota (Sri Lanka) e Djibouti (Chifre da África) funcionam como nós de uma rede logística e de projeção de poder, um claro desafio à hegemonia naval estadunidense.
Em resposta, os Estados Unidos e seus aliados rearticulam suas estratégias. A pulverização de bases americanas na região e a intensificação de exercícios militares no Mar do Sul da China, no Mar do Japão e no Estreito de Taiwan, espelham a aplicação prática da teoria do Rimland de Nicholas J. Spykman (1944).
A estratégia de Spykman, que postulava que o controle do "anel" costeiro da Eurásia seria a chave para o poder global, pois o resultado seria a conquista da ilha do Mundo. Essa é hoje a essência da contenção marítima contra a China. A aliança entre Estados Unidos e aliados, materializada em arranjos como o QUAD (EUA, Japão, Austrália, Índia) e, mais recentemente, o AUKUS (Austrália, Reino Unido, EUA), reflete uma coordenação militar e diplomática visando fortalecer a presença no Rimland e limitar a expansão chinesa.
A situação de Taiwan, que a China considera uma província rebelde, é o ponto de maior tensão. A estratégia da ambiguidade dos Estados Unidos, sobre sua intervenção em caso de ataque chinês, reflete a volatilidade do equilíbrio regional. O controle sobre a ilha, além de seu valor simbólico e geopolítico, é de suma importância para o controle do comércio de semicondutores, um ativo crítico na economia global para ambas potências em franca guerra econômica.
Essa disputa por recursos e rotas críticas remete à lógica malthusiana, onde a competição por bens essenciais e escassos é um motor de conflito. O poder chinês, no entanto, não se restringe à esfera militar. A aplicação do Smart Power de Pequim, uma combinação de hard (militar) e soft (cultural, diplomático) poder, traduz-se em uma ampla rede de parcerias econômicas e na promoção de uma ordem alternativa à ocidental.
O crescimento do PIB da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) e a iniciativa do “Cinturão e Rota” (BRI) são exemplos da construção de uma "sociedade de estados", universal e multilateral, com normas e valores próprios, um fenômeno que dialoga com a Escola Inglesa de Relações Internacionais e o desafio chinês à primazia do direito internacional liberal.
3. CONCLUSÃO
A disputa no Indo-Pacífico revela uma confluência de teorias geopolíticas e de relações internacionais. A percepção neorrealista do poder, onde a acumulação de capacidades de um lado provoca a corrida armamentista do outro, fomenta a militarização acelerada da região. O neorrealismo japonês, por exemplo, manifesta-se no abandono gradual do seu pacifismo constitucional e no fortalecimento de suas forças armadas, um movimento replicado por outras nações regionais.
A luta pelo controle de ativos críticos, como o Estreito de Malaca, por onde transita uma parcela majoritária do comércio global, e a hegemonia sobre a tecnologia de semicondutores, acirra as tensões. A lógica hobbesiana, que vislumbra o sistema
internacional como um estado de natureza onde a força é o árbitro final, parece cada vez mais relevante para descrever a dinâmica de poder na região.
Em última análise, a vasta extensão do Indo-Pacífico, com sua centralidade para o comércio e sua crescente importância estratégica, reconfigura o mapa-múndi da Geopolítica. A colisão de interesses das duas maiores potências marítimas — a estabelecida e a emergente — demonstra que a região não é apenas um palco de competição, mas sim o motor da política global do século XXI.
É a Nova Área Pivot de Mackinder, porém transposta para a dimensão líquida de Mahan, onde o controle sobre os mares e as ilhas definirá a hegemonia da próxima era. O atrito, por ora contido, já está em curso.

Nova Área Pivot
REFERÊNCIAS
KENNAN, George F. The sources of Soviet conduct. Foreign Affairs, v. 25, n. 4, p. 566-
582, 1947.
MAHAN, Alfred Thayer. The Influence of Sea Power Upon History, 1660-1783. Boston:
Little, Brown and Company, 1890.
MACKINDER, Halford J. The geographical pivot of history. The Geographical Journal,
v. 23, n. 4, p. 421-444, 1904.
"SPYKMAN, Nicholas J. America's Strategy in World Politics: The United States and
the Balance of Power." (“America's strategy in world politics : : the United States...”) NewYork: Harcourt, Brace and Company, 1942.
WALTZ, Kenneth N. Theory of International Politics. Reading: Addison-Wesley, 1979.



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